A MENINA DA FAVELA

 

        Mal o sol desponta, ei-la à porta de seu barraco.

        Pés descalços, o mínimo de roupas sobre o corpo esguio e cabelos esvoaçando ao vento, ela fica ali parada, recebendo a brisa do mar, o vento que brinca em seus cabelos e os primeiros raios solares a dourarem seu corpo escultural.

        Fica imóvel ,olhos cerrados e mente pura; pensamentos onde não entram a pobreza dos casebres, a sujeira das crianças que brincam nas águas poluídas pelo lixo e outras imundícies que descem a céu aberto pelas encostas.

        Durante algum tempo, no topo do morro, ela se sente importante, sente-se senhora da imensidão azul do céu, do mar infinito e misterioso e do vento buliçoso e matreiro.

        Sonha! Sonha lindos sonhos de moça, viaja nas asas da ilusão e caminha por estradas encantadas e ouve as mais belas melodias de amor entoadas pelo gorjeio dos pássaros.

        Ela não se move e, olhando-a nesse misto de transe e hipnose, todos a admiram e vêem nela o toque do Criador, pois ali ela é a mais viva essência divina em forma de uma jovem na qual o desequilíbrio social ainda não aguilhoou seu puro coração.

        Sei que ela sonha; que espera e anseia por uma vida melhor, pois ela luta e trabalha.

        Logo ela descerá a ladeira espargindo sua juventude e alegria de viver a todos a quem encontrar. Viverá como todos os mortais mais um árduo dia de luta e atribulações, mas, ao cair da tarde, lá estará ela novamente sobre o rochedo; cabelos soltos ao vento, pés descalços e, na sua imobilidade, quase podemos ouvir a prece de exaltação à beleza do céu; pela grandiosidade do mar e gratidão pela exuberante natureza.

        Bela menina moça! Que seus sonhos não se acabem na indiferença dos seres humanos; que sua felicidade não se quebre ante as injustiças e ingratidão dos homens e, que acima de tudo tenha sempre como a “deusa do rochedo”, o poder de transbordar felicidade sobre a pobreza de sua favela, fazendo todos sentirem, em você, a presença de Deus.

 

(Homenagem às minhas ex alunas da favela da “ Vila Baiana .”no Guarujá

 

Zenaide Pereira Vuolo Garcia     10/01/96