PREFÁCIO
Quem não tem sua própria história viva
na memória? Mas nem todos a contam – por não querer, por não saber, por não
ousar.
Minha irmã Therezinha dispôs-se a contar a sua, de maneira simples e econômica,
sem outra pretensão que não a de rememorar os fatos que permaneceram mais vivos.
O que aqui se lerá é uma narração em ordem cronológica dos acontecimentos
escolhidos para fazer pulsar as lembranças e o sentido de uma já longa
trajetória.
Mas não nos enganemos: a economia e a simplicidade da narração não escondem a
emoção da matéria narrada. Como diz Therezinha, “são muitos tesouros que guardo
no coração”. A memória por ela convocada é composta mais pelas luzes do que
pelas sombras; aliás, as próprias sombras, com o passar do tempo, deixaram de
ser apenas dores para também se tornarem iluminações de um caminho. Na sua
convicção de espírita, a mulher que narra sua vida material está o tempo todo
conferindo a cada pequeno fato um valor transcendente; cada pequeno momento
lembrado é uma peça de seu tesouro.
Não posso nem quero esconder que, como irmão da mulher que narra sua biografia,
tomo parte nela e desfruto de uma condição privilegiada para compartilhar essas
lembranças. Elas me ajudam a melhor recompor e a entender parte da minha própria
história. Ao mesmo tempo, estou certo de que mesmo um leitor muito distante das
experiências de vida aqui relatadas saberá encontrar nelas o interesse que toda
memória provoca: o testemunho insubstituível de quem reaviva honestamente suas
próprias percepções e refaz o percurso de uma vida que deseja compartilhar. Pela
força própria da narração, o que é a memória do outro fica sendo uma história
que se presentifica para nós, e repercute na nossa. Como já disse um pensador da
Antigüidade clássica, “nada do que é humano me é alheio”.
O que aqui se lerá revela uma mulher ativa em muitos planos: no da expressão
artística (cantando, declamando, tocando, escrevendo), no da incansável
dedicação à família, aos alunos e aos amigos (atualmente, em vez de cadeira de
balanço prefere dar aulas de yoga), no da atuação política voluntária (sempre
cidadã vigilante diante dos desmandos), nas colaborações para os jornais. Ela é
uma referência para muitos, em Casa
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Branca, especialmente para os tantos que já puderam desfrutar de seu espírito de
solidariedade.
O que aqui se lerá está, também, carregado de detalhes que não podem ser
perdidos, como sugestões poéticas: há menções a um repertório variado de músicas
e canções antigas, que constituem uma espécie de fundo musical de toda uma
época; há referências passageiras e, no entanto, cheias de vibração, como a de
certa orquídea que floresce todo ano, regularmente, ou a de um vestido branco
que iluminou um dia muito especial, ou da frase do amado que lhe prometeu
buscá-la “nem que fosse no fim do mundo” – e cumpriu a promessa.
Mas há uma lembrança que me toca particularmente e que quero aqui destacar: a de
um certo quebra-cabeça, com o qual se formava a imagem de Santa Therezinha, que
aos sete anos ganhou de nosso pai. Pois bem: tempos depois, eu menino por vezes
montava com grande interesse esse quebra-cabeça, tirado de uma lata bonita, que
com algum ciúme ela me deixava abrir. Vejo agora que, com estas memórias, ela
soube montar sua própria imagem de Therezinha, com as palavras despojadas e o
calor sincero do permanente desejo de comunicação, que é sua marca registrada.
Como irmão e como leitor, fico feliz por ela me confiar as palavras de
apresentação de suas lembranças mais caras.
Alcides Villaça (mano Celso)

Nota da autora : Alcides Villaça nasceu em Atibaia (SP), em 1946. Cresceu em
Casa Branca, São Carlos e Campinas, fixando-se em São Paulo a partir de 1967.
Formou-se em Letras na USP, onde leciona Literatura Brasileira desde 1973. Na
mesma instituição (Universidade de São Paulo) obteve o título de mestre,
dissertando sobre Carlos Drummond de Andrade, em 1976 e de doutor, com um
trabalho sobre Ferreira Gullar, em 1984 – ambos inéditos. Como tese de
livre-docência, apresentou um conjunto de ensaios intitulado: “Lendo Poetas
Brasileiros”. Publicou em 1975 o livro de poemas “O tempo e outros remorsos” ;em
1988 “Viagem de trem” ; em 2006 publicou o primeiro livro de crítica “Passos de
Drummond”. Como poeta e crítico vem colaborando em alguns dos principais jornais
e revistas do país, tendo dado várias entrevistas na TV Cultura, nos programas:
Metrópolis, Nossa Língua Portuguesa, Opinião Nacional, tendo participado como um
dos entrevistadores na Roda Viva. Participa de Congressos Literários proferindo
palestras sobre fatos e escritores: suas vidas e obras.
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